Quinta-feira, 3 de julho de 2003 | Especial | O Informativo

A agilidade de um homem transformado em orquestra - Denise Ritter - denise.jornal@joinet.com.br

HENRIQUE UEBEL

7/3/20033 min ler

Teutônia - Os dedos percorrem as teclas do piano, enquanto a planta do pé aciona os pratos da bateria. Os joelhos movimentam o fole da gaita e mudam a harmonia da música. A mão direita se ocupa da gaita, da flauta e das teclas do pistão. O queixo seleciona oito gaitas-de-boca.

Ser humano e instrumentos musicais se fundiam nas apresentações de Henrique Uebel, o Homem Orquestra. Piano, gaita, flauta, pistão, gaitas-de-boca e pratos da bateria como extensões de mãos, pés e joelhos. Animados ao toque ágil de um senhor franzino, que se apegou à música - e viveu para ela - ao convalescer de uma cirurgia delicada nos pulmões.

Ele viveu no Vale do Taquari, mas ganhou parte do mundo esticando os próprios limites: São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Argentina, Paraguai e uma turnê de seis meses pela Europa, entre julho e novembro de 1959. Com direito a aparições em redes de televisão da Alemanha, Áustria, Suíça, França, Bélgica, Holanda, Dinamarca e Luxemburgo. De volta do Brasil, foi atração de programa em rede nacional, com 40 milhões de telespectadores.

Henrique, filho de Adolfo e Auguste Lizete, nasceu em 1906 em Linha Schmidt, na época localidade de Estrela e hoje município de Westfália. Casou aos 23 anos com Wilma Rex e teve três filhos: Íris, Herbert e Erno, que faleceu cinco dias antes de interpretar o pai em um documentário produzido em 1999.

Da enxada para a música

Na década de 30 comprou terras em Estrela, para se aproximar dos iguais. Acreditava que a cidade abrigasse mais músicos do que sua terra natal. Ainda tocava apenas bandoneon, mas a doença o fez abandonar as lides no campo. "Um dia ele me disse que precisava fazer e tocar música porque não podia mais realizar serviços pesados na agricultura, pois fora proibido pelo médico", recorda o neto de Henrique, Airton Uebel (48), morador de Estrela. Resignado e determinado, acreditou poder formar uma banda. Sozinho. E conseguiu se transformar no Homem Orquestra.

O primeiro gabinete musical foi montado em seguida. Foram cinco ao longo de sua vida. O último está exposto no museu de Teutônia. Eram construídos sob medida. Os primeiros feitos na marcenaria do Hollmann, em Westfália, e o último por Hélio Müller.

O gabinete precisava de habilidades educadas em ensaios que se estendiam até as 23h. "Eu tenho uma lembrança muito forte até hoje, porque o som ambiental ao fundo me induzia ao sono. Essa é uma das lembranças mais fortes que guardo até hoje", comenta Airton.

Carisma e simplicidade

Os dotes foram se aperfeiçoando em apresentações pelo interior da região, precedidas do espoucar de foguetes que o próprio Henrique transportava. Eles anunciavam as apresentações no gabinete. Uebel também tocava violino, violoncelo, bumbo e bandoneon.

"Henrique Uebel foi um gênio e um virtuoso, que não perdeu sua simplicidade. Ele criou um carisma perante a população, que dificilmente um artista consegue adquirir", declarou o pesquisador Werno Lohmann - que faleceu no ano passado - em um documentário sobre a vida do Homem Orquestra. O material reúne fotos, depoimentos de familiares e amigos e cenas gravadas em um show de Henrique na Alemanha.

Nem assim a simplicidade deste homem do campo, com apenas o primário completo, foi contaminada. Um dos filhos, Herbert, salienta este traço na personalidade do pai: "Ele não gostava de ser chamado de o Homem dos Sete Instrumentos, porque não considerava o prato e o bumbo como instrumentos". Mas este foi o título imposto a partir de uma manchete do Jornal do Povo sobre uma apresentação em Porto Alegre.

Mas foi o seu nome verdadeiro que batizou a principal rua de Westfália e o museu de Teutônia. Em 2006, quando ele completaria 100 anos, a família pretende realizar um grande evento. Henrique, o Homem Orquestra, faleceu no dia 8 de janeiro de 1973, aos 66 anos. No sepultamento a família obedeceu a um singelo desejo do músico: um conjunto de trombones tocou a Valsa do Adeus.

Reportagem: Sucursal de Teutônia

fotos Adil Cesar e arquivo da família

(Legendas das fotos presentes na página)

  • Foto superior central: Uebel conseguia tocar vários instrumentos ao mesmo tempo

  • Foto superior direita: Henrique Uebel

  • Foto central: Herbert (e), Íris, Erno (em pé), Wilma e Henrique

  • Foto inferior: Uebel se apresentou em vários estados e países