O centenário do “Homem dos Sete Instrumentos”

Caderno integrante do jornal Folha de Estrela | 17 de agosto de 2006 - Edição nº 374 De Tudo 1 Pouco

HENRIQUE UEBEL

8/17/20065 min ler

No próximo domingo, 20, em Teutônia, a família Uebel terá seu terceiro encontro, que nesta edição dará enfoque para o centenário de Henrique Uebel, com bela programação que inclui apresentação de orquestras, danças folclóricas, exibição de vídeo sobre o instrumentista, almoço comemorativo e baile.

Henrique Uebel nasceu no dia 22 de agosto de 1906, em Linha Schmidt - hoje Westfália. Filho de Adolfo Uebel e Auguste Lizete Uebel, foi o primeiro filho de quatro irmãos: Frida Uebel – casada com Valdemar Lindemann; Elza Uebel – casada com Olimpio Closs; e Edmundo Uebel – casado com Marta.

Aos 15 anos, Henrique demonstrava muito interesse pela música, então, fez oito dias de aula com seu tio, que também se chamava Henrique Uebel. Esta foi a única noção que teve de música, desempenhando este aprendizado com o bandonion.

Começou então a tocar bandonion em casa de famílias, como era costume da época - os chamados fandangos, que reuniam amigos para festejar algo. Com isso, ele passava um “prato” para recolher a recompensa que era ofertada por sua dedicação como músico.

Em 02 de fevereiro de 1929 casou-se com Vilma Rex, nascida também em Linha Schmidt. Inicialmente moraram com os pais de Henrique e, um ano depois, mais especificamente em abril de 1930, ele comprou terras em Estrela (próximas à atual rodoviária).

No dia 16 de fevereiro de 1930 nasce o primeiro filho do casal - Erno -, sendo que em 18 de agosto de 1931 nasce o segundo filho - Íris, e em 1938, nasceu seu terceiro filho - Herbert. Neste período, Henrique trabalhava como agricultor, mas continuava tocando suas músicas em casa de vizinhos.

Em 1933 sofreu uma pleuresia, ou pneumonia. Passou por três cirurgias.

Conforme uma auto bibliografia existente, preocupado com o sustento da família, ainda na cama do hospital, pensou em ganhar o sustento como músico. Imaginando uma orquestra com sete músicos tocando vários instrumentos, chegou à conclusão que também poderia fazer todo esse som sozinho. Com muita força de vontade começou a juntar, um a um, os instrumentos. Porém, seu maior desafio era como tocá-los, afinal era um autodidata, apenas sabia usar o bandonion. Aprendeu, então, a tocá-los sozinho. Além disso, criou instrumento de corda (existe uma espécie de mapa, uma planta, que ele fez para criar este). Como não tinha condições de comprar um piano, ele esticou bem as cordas deste instrumento (que ele tocava com os pés), procurando todas as tonalidades, fazendo um arranjo, de maneira que fosse possível substituir o som do piano.

O primeiro instrumento criado por ele, em 1933/34, existe somente em foto (abaixo). A partir deste, ele começa a ampliar o número de instrumentos, inicialmente os mais simples - como o bumbo e o prato - evoluindo para os mais complexos como o violino, pistão, violoncelo, gaita, flauta, piano (que era tocado com os pés), gaita de boca, que ele consegue comprar em Porto Alegre, a qual adaptou de forma que pudesse tocar sem o uso das mãos, colocando em um suporte. Para mudar a tonalidade, usava o queixo, que ele empurrava para frente o para trás, conforme a necessidade da música. A flauta foi outro invento criado por ele -como tinha que ser tocada com as duas mãos, ele fabricou uma que pudesse ser tocada apenas com uma mão, liberando a outra para tocar outro instrumento.

Em 1935, Centenário da Revolução Farroupilha, Henrique alugou um espaço no Parque Farroupilha, em Porto Alegre, onde se apresentou, como o “Homem Orquestra” ou o “Homem Jazz Band”, como era chamado, baseado na orquestra dos Estados Unidos.

Resolveu então se apresentar não mais tocando em bailes, mas fazendo shows, tendo que se deslocar de um lugar para outro, com grande dificuldade em função de enchentes, faltas de ponte, estradas enlameadas, até que comprou uma caminhonete 29, na qual colocou uma carroceria que servia tanto para carregar seu instrumento como para moradia, onde ele pudesse ficar quando não havia hospedaria.

No dia 31 de agosto de 1948 ele comprou uma outra caminhonete. Após esta compra, ele arrumou um empresário para organizar e agendar seus shows.

Seu empresário chegou à conclusão que, primeiramente, ele deveria ganhar fama e para isso deveria ir a Porto Alegre, onde se apresentou nas rádios, deu entrevistas e foi notícia nos jornais.

Enquanto estavam em Porto Alegre, Henrique percebeu que seu empresário não levava seu trabalho a sério e era um tanto desonesto, então resolveu despedi-lo lá mesmo. Voltando para Estrela, estava angustiado, pois encontrava-se endividado pela compra do caminhão e sem seu empresário para agendar seus shows.

Na rádio de Taquari, que fundada em julho de 1948, trabalhavam Oscar Chaves Garcia e Ataíde Ferreira que, vendo seu desespero, começaram a tocar o trabalho de Henrique. Passaram então a arrumar local de baile para ele se apresentar, no Alto Taquari, anunciando sua apresentação o dia todo na rádio, e assim ficou conhecido e aos poucos foi se expandindo como músico, passando a se apresentar em outras cidades, como Venâncio Aires, Santa Cruz do Sul e no Vale do Caí, conquistando mais a colonização alemã pelo seu tipo de música. Aos poucos começa a se tornar conhecido como músico em todo Rio Grande do Sul. Na década de 50 já havia alcançado Cachoeira do Sul, Agudo, Novo Hamburgo.

Em 1954, Henrique se apresenta até em São Paulo, na TV Tupi. Em pouco tempo, suas apresentações chegam até o Rio de Janeiro.

Em junho de 1959, de Porto Alegre ele decide ir para Alemanha. Comprou passagem de navio - de bandeira francesa Louis Lumière - para ele e sua esposa (que sempre o acompanhava), despachando seu instrumento pela Varig até Waldsee (Alemanha), a partir de lá seu instrumento seguiria com ele. Permaneceram na Alemanha até novembro daquele ano. Não havendo nada programado lá, o pastor Hans Wendt conseguiu um empresário para agendar os shows e os amigos também ajudaram. Inicialmente conseguiram uma apresentação na TV, em Baden-Baden, e na TV de Colônia, onde apresentou-se com outros músicos. Ainda na Alemanha foi produzido um documentário sobre sua estada, o qual era apresentado no cinema antes dos filmes. Em 31/01/60 o show de Henrique, na TV de Colônia, foi transmitido, através de rede, para toda Europa, sendo visto por 40 milhões de telespectadores.

Mais tarde, ele cria o 5º instrumento, em Teutônia. Com este instrumento ele chega a se apresentar até no Paraguai. Em 1963 ele havia comprado outra caminhonete, com a qual viaja para oeste do Paraná, juntamente com seu filho Herbert. Mais e mais viagens são efetuadas, tornando-o conhecido nacional e internacionalmente.

Certo dia sentiu-se mal, foi até o médico de Teutônia, o qual o aconselhou a procurar atendimento em Estrela, onde, após examinado, foi encaminhado para Porto Alegre (onde sofreu uma cirurgia), pois seu caso era grave. No final de 1972 foi diagnosticado que ele estava com câncer. Henrique Uebel faleceu no dia 08 de janeiro de 1973, mas deixou-nos o seu legado e o orgulho de fazer parte da nossa história, sempre divulgando o nome de Estrela pelos quatro cantos do mundo.