Homem Orquestra continua inigualável
JORNAL O INFORMATIVO TEUTÔNIA - RS POÇO DAS ANTAS - PAVERAMA - WESTFÁLIA - BOA VISTA DO SUL Nº 694
HENRIQUE UEBEL
7/2/20036 min ler


A façanha de Henrique Uebel, que ficou conhecido como Homem Orquestra por tocar vários instrumentos ao mesmo tempo, ainda não foram repetidas. O músico foi um fenômeno dentro da sua época e um dos maiores artistas surgidos no Vale do Taquari. Apesar da instrução primária, dominava os segredos da música como poucos. Movido pela necessidade e obstinação, construiu um gabinete musical, que possibilitou realizações inéditas e históricas. Reportagem na páginas 6 e 7.
Embora não tenha o devido reconhecimento, Henrique Uebel, que ficou conhecido como Homem Orquestra por tocar vários instrumentos ao mesmo tempo, foi um fenômeno dentro da sua época e um dos maiores artistas surgidos no Vale do Taquari. Apesar da instrução primária, dominava os segredos da música como poucos. Movido pela necessidade e obstinação, o agricultor construiu um gabinete musical, que possibilitou realizações inéditas, históricas e que jamais foram igualadas.
Histórico pessoal
Henrique Uebel, filho de Adolfo e Auguste Lizete, nasceu em 22 de agosto de 1906 na Linha Schmidt, na época localidade de Estrela, hoje município de Westfália, onde passou a adolescência. Casou-se em 2 de fevereiro de 1929 com Wilma Rex, com quem teve três filhos: Erno, Íris e Herbert.
Último gabinete musical usado por Uebel está no Museu de Teutônia, batizado com seu nome
"No ano seguinte, ele resolveu se transferir para perto de Estrela porque, percebendo que tinha tremenda vocação para música, achava que teria mais oportunidade de se aperfeiçoar, pois lá existiam mais músicos. Agricultor como era, comprou uma terra em 28 de abril de 1930 entre as cidades de Estrela e Lajeado. Lá morou alguns anos e após voltou à Linha Schmidt porque passou a sofrer de uma grave doença e achava que não teria mais condições de sustentar a família, trabalhando como agricultor. Baseado nisso, resolveu aumentar a quantidade de instrumentos que tocava até então, que era só o bandoneon. Ele achava que, sozinho, poderia formar uma orquestra", contou o filho Herbert, que hoje mora em Agudo.
Gabinete
A idéia de construir o gabinete musical surgiu no hospital, durante o período em que se recuperava de cirurgia delicada nos pulmões. O primeiro foi montado no início da década de 30. "Ele próprio, conforme consta em seus relatos, não se dava por satisfeito e, por isso, procurava aperfeiçoar o aparelho cada vez mais. Aquele que está exposto no museu de Teutônia é o quinto e último", revelou o professor e historiador Élio Dahmer. Os gabinetes eram personalizados, ou seja, construídos sob medida para Uebel. Todos foram feitos na região, sendo os primeiros na Marcenaria do Hollmann, em Westfália, e o último por Hédio Müller. O músico chegou a procurar um consertador de pianos em Porto Alegre, que não aceitou o trabalho ao verificar a complexidade do equipamento.


Persistência
"Ele veio várias vezes pedindo para o Hédio fazer o instrumento. Num primeiro momento não aceitou porque achava que não daria certo. Mas por fim acabou concordando. Eles trabalharam quase que dia e noite nisso. Muitas peças, eles mesmos tiveram que fazer. Para ele (Uebel), praticamente, não tinha outra conversa se não sobre o instrumento", lembrou Irmgard Müller, esposa de Hédio.
Coordenação
Para tocar todos os instrumentos, o músico teve que desenvolver uma coordenação motora fantástica porque precisava movimentar várias partes do corpo ao mesmo tempo. O neto Airton Uebel (48), que mora em Estrela, disse não saber se foi mais difícil tocar ou construir o aparelho que une os instrumentos. "Esta é uma pergunta que não sei responder." Com os dedos dos pés tocava Piano. Usava a planta do pé para acionar os pratos da Bateria. Com os joelhos movimentava o fole da Gaita e ainda mudava, com o direito, a harmonia da música. As teclas da Gaita tocava com a mão direita, que também utilizava para manejar a Flauta. As teclas do Pistão eram acionadas pela palma da mão. Com o queixo selecionava oito Gaitas-de-boca. Ainda conseguia tocar Violino, Violoncelo, Bumbo e Bandoneon.ipamento.
Necessidade
"Um dia me disse que precisava fazer e tocar música porque não podia mais realizar serviços pesados na agricultura, pois havia sido proibido pelo médico. Apesar da proibição, jamais deixou este aspecto de lado porque tinha muito carinho pelo cultivo, tanto que suas apresentações, normalmente, eram feitas nas localidades do interior", relatou Airton.
Estratégia
Antes das apresentações nas localidades, Uebel soltava foguetes para chamar a atenção dos moradores. Era a forma mais rápida e abrangente de convidá-los para seus concertos. "Os bailes na época, ao contrário de hoje, eram dois ou três por ano. Mesmo sendo um perigo, ele trazia foguetes no carro por temer que no local da apresentação não tivesse. Chegava no local e, após tratar com o dono do salão, começava a largar foguetes", recordou Herbert.
Gênio
"Henrique Uebel foi um gênio musical e um virtuoso, que não perdeu sua simplicidade. Com isso, ele criou um carisma perante a população, que dificilmente um artista consegue adquirir no decorrer do tempo". As declarações foram concedidas pelo pesquisador Werno Lohmann, que faleceu ano passado.
Aperfeiçoamento
O Homem Orquestra treinava exaustivamente para aperfeiçoar suas técnicas. "Ele ensaiava até as 10h ou 11h da noite, claro que não num tom alto. Eu tenho uma lembrança muito forte até hoje porque o som ambiental ao fundo me induzia ao sono. Gostava demais e quando parava o ensaio, a música me fazia falta porque já estava habituado. Essa é uma das lembranças mais fortes que guardo até hoje", comentou o neto Airton Uebel (48), que reside em Estrela.
Nacionalista
Durante as apresentações fazia questão de evidenciar as bandeiras do Brasil e Rio Grande do Sul que ficavam sobre o gabinete musical, onde também colocava o estandarte do Estado ou país em que estava. Já a bandeira de Estrela, numa deferência especial, permanecia no meio do bumbo.
Morte
O Homem Orquestra faleceu em casa no dia 8 de janeiro de 1973, quando tinha 66 anos, levando consigo habilidades que até hoje não puderam ser igualadas. No sepultamento, realizado no cemitério de Estrela, a pedido dele próprio, compareceu um conjunto de trombones que tocou a Valsa do Adeus.
Homenagem
Em Westfália e Teutônia, o músico foi homenageado pelas Administrações Municipais. Em Westfália, a principal rua recebeu o seu nome. Em Teutônia, o museu foi batizado de Henrique Uebel. Em 2006, quando o Homem Orquestra completaria 100 meio do bumbo.


permanece sendo inigualável
anos, a família realizará evento para marcar a passagem da data.
Internacional
Além de ter realizado shows em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Argentina e Paraguai, o Homem Orquestra realizou uma turnê de seis meses pela Europa, onde ficou de 25 de julho a 25 de novembro de 1959. O auge foram as aparições em redes de televisão, que atingiram dezenas de milhões de habitantes na Alemanha, Áustria, Suíça, França, Bélgica, Holanda, Dinamarca e Luxemburgo. Um show gravado, apresentado em 31 de janeiro de 1960, quando já havia retornado ao Brasil, foi mostrado por uma rede que atingia em torno de 40 milhões de telespectadores. Também foi tema para programas de rádio e matéria de jornais como o Bild Zei Tung, cuja tiragem passava dos três milhões de exemplares.
Avesso
"Meu pai era uma pessoa muita justa e honesta. Não gostava de ser chamado de O Homem dos Sete Instrumentos porque não considerava o Prato e Bumbo como instrumentos. Ele só considerava instrumentos aqueles que faziam melodia. Mas, a partir da manchete no Jornal do Povo sobre a apresentação em Porto Alegre do grande homem que tocava sete instrumentos ao mesmo tempo, ele não pôde mais recuar porque circulou por todo o Rio Grande do Sul. Acho que até contrariado, ele acabou aceitando que tocava sete instrumentos ao mesmo tempo", lembrou Herbert.
Produção de documentário
Com o apoio da Administração Municipal de Teutônia foi produzido um documentário sobre a vida de Henrique Uebel em 1999. Além de várias fotos, o filme apresenta depoimentos de familiares e amigos que conviveram com o músico. No final são apresentadas cenas gravadas durante um show na Alemanha. Aliás, a produção do documentário era uma aspiração de Uebel, que desejava deixar algo registrado sobre sua façanha. "Talvez fosse um dos seus maiores desejos", comentou Élio Dahmer. Mas por pouco as filmagens não foram canceladas. Cinco dias antes do início das gravações, Erno, escolhido para interpretar o pai devido a grande semelhança física, faleceu de forma surpreendente. O personagem acabou sendo encarnado pelo neto Airton, filho de Erno.
